
Em 1983, um filme ousado e meio maluco chamado Krull chegou aos cinemas. Produção britânica dirigida por Peter Yates (sim, o mesmo de Bullitt, com Steve McQueen), a ideia era clara: misturar fantasia medieval com ficção científica e, de quebra, tentar disputar espaço com os gigantes do momento, como Star Wars e Conan, o Bárbaro. Resultado? Um épico diferente de tudo, que fracassou nas bilheteiras, mas ganhou o coração de quem ama universos fantásticos.
A história acompanha o príncipe Colwyn (interpretado por Ken Marshall), que está prestes a se casar com a princesa Lyssa (Lysette Anthony). Claro que não poderia ser tão fácil: a cerimônia é interrompida por uma invasão alienígena (!), comandada pela criatura conhecida como A Besta, que sequestra Lyssa e a leva para sua Fortaleza Negra — um castelo que tem a mania irritante de mudar de lugar a cada dia. Imagina tentar jogar no Google Maps…
Para resgatá-la, Colwyn embarca em uma jornada heroica, repleta de aliados carismáticos (e alguns azarados). Entre eles estão o velho sábio Ynyr (Freddie Jones), o ladrão trambiqueiro Ergo (David Battley), o ciclope Rell (Bernard Bresslaw), e até um jovem ator praticamente desconhecido na época chamado Liam Neeson, no papel de Kegan, um dos bandidos que se junta à missão. Sim, Obi-Wan ainda estava no futuro da carreira dele.
O grande ícone do filme é a arma lendária Glaive, uma espécie de estrela ninja mágica com cinco lâminas. No material promocional, o Glaive parece ser o centro da trama, mas quem assistiu sabe: Colwyn passa metade do filme esquecendo que a arma existe e só resolve usá-la lá no clímax. Mas, convenhamos, que design incrível! Não à toa, o Glaive virou símbolo eterno do longa e até hoje aparece em listas de “armas mais estilosas do cinema”.

Visualmente, Krull impressiona para a época: cenários gigantescos, efeitos práticos ousados e uma trilha sonora épica composta por James Horner (o mesmo que anos depois faria Titanic e Braveheart). O problema é que o roteiro às vezes parecia não saber se queria ser conto de fadas, ficção científica ou space opera. Isso deixou a crítica meio perdida, e o público também. O orçamento foi alto, mas o retorno nas bilheterias foi baixo — e assim Krull acabou se tornando um dos grandes “quase” da fantasia dos anos 80.
Mas o tempo foi generoso com o filme. Entre fãs de RPG e cultura nerd, Krull virou cult. Muitos mestres de mesa, lá nos anos 80 e 90, se inspiraram na mistura de cavaleiros, alienígenas, castelos móveis e armas mágicas para criar campanhas épicas. O ciclope trágico, a jornada cheia de encontros improváveis, o item lendário que só pode ser usado uma vez — tudo isso soa muito como uma sessão clássica de Dungeons & Dragons.
Na cultura pop, Krull deixou marcas discretas mas curiosas. O Glaive foi parodiado em Os Simpsons e referenciado em jogos de RPG, quadrinhos e até em videogames dos anos 80. Embora nunca tenha ganho uma sequência, o filme vive na memória afetiva de quem cresceu na era VHS e descobriu aventuras fantásticas fora do circuito mais óbvio de Hollywood.
Krull pode não ter sido o novo Star Wars, mas ousou sonhar grande. Misturou espadas, magia, naves e monstros, tudo embalado em trilha épica. Hoje é lembrado como aquele primo excêntrico que ninguém entendeu direito na época, mas que, com os anos, acabou ganhando status cult. E para quem joga RPG, Krull sempre será uma lembrança de que o improviso, a criatividade e a mistura de gêneros podem gerar universos fascinantes.







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